Tradições Pascais: Compasso na Páscoa

O compasso na Páscoa

No Domingo de Páscoa, e em alguns locais nos dias seguintes, o sacerdote acompanhado por mais algumas pessoas, transporta o crucifixo e leva a casa dos paroquianos a "boa nova" e a "bênção pascal". As pessoas da família, amigos e vizinhos reúnem-se e ajoelham na sala principal, onde o padre lhes dá a cruz a beijar. Esta é a principal simbologia do Compasso. Caída em desuso em muitas localidades, noutras tende a ser recuperada, este ritual revestia-se antigamente de um maior cerimonial.

As ruas e as entradas das casas apresentavam-se enfeitadas com verdura e e cobertas com tapetes de flores e plantas aromáticas (alecrim, rosmaninho, hortelã silvestre). Escolhia-se a melhor mesa da sala, que se cobria com uma toalha de renda ou bordada, quase sempre com motivos religiosos. Em diversas aldeias da Beira Alta, a toalha do folar, ou a toalha da Páscoa era de renda, acrescentada consecutivamente quando a família ia aumentando tecida por mãos femininas.

Sobre a mesa era colocado um crucifixo, ladeado por castiçais e jarras com flores, juntamente com as ofertas de carácter alimentar destinadas ao prior: bolos, frutos, queijos, pão-de-ló.

Numa outra mesa, enfeitada com ovos tingidos ou decorados, "preparada para um pequeno brinde", encontrava-se o "folar do padre", que consistia num donativo em dinheiro colocado numa salva de prata, numa taça ou num prato. Em tempos mais recuados, esta dádiva era constituída por uma moeda, geralmente de prata, cravada numa laranja ou maçã.

A finalizar o rito do Compasso, é servido aos portadores da cruz um Porto, acompanhado de doces e biscoitos.

No Minho, semanas antes da Páscoa, era costume semearem-se as "searinhas" de trigo, cevada, aveia ou centeio, em pratinhos que, nas casas senhoriais, eram guardados, conforme o preceito, dentro das prateleiras para germinar.

Na altura da visita pascal, as "searinhas" colocavam-se como elemento cerimonial, sobre as grandes cómodas, altas, com oratórios, que nesses tempos representavam uma peça de mobiliário corrente nas salas das casas mais abastadas. Este costume das "searinhas" é também conhecido pela sua tradição noutras celebrações religiosas ou festivas, como no São João ou no Natal.

Em algumas localidades mantém-se o costume de os paroquianos serem avisados, pelo toque dos sinos, de que o pároco vem a caminho, mal o Compasso sai da igreja.

Era tradição em alguns locais do país, no Domingo de Páscoa pela manhã, ouvirem-se cânticos idênticos em todas as casas quando os sinos repicavam festivamente a anunciar a Ressurreição de Cristo.

Em alguns lugares é actualmente costume o padre mandar entregar em casa dos paroquianos, dias antes da visita pascal, uma carta com algumas palavras, expressando os votos de "Páscoa feliz", retribuindo depois quem a recebe com o usual folar do padre.

O folar é ainda o presente que os padrinhos oferecem aos afilhados quando estes o vão receber. A palavra "folar" deixou de ter o significado de outrora. Primeiro conhecido como um bolo cerimonial da quadra pascal, entrou em desuso quando os afilhados passam para a maioridade ou casam.

Associado à doçaria tradicional desta época, suguem também os ovos de Páscoa. Símbolo da fertilidade e da abundância, representa também uma homenagem à nidificação, que acontece nesta altura do ano, quando as aves terminam a construção dos ninhos, chocam os ovos ou alimentam os filhos. Simboliza assim o princípio da vida, mas ganha também outra leitura: a casca - a Terra, a parte interior - o ar, a clara - a água e a gema - o fogo que representam os elementos fundamentais da vida humana. Num sentido religioso, sugere Cristo que venceu a morte saindo do túmulo.

No séc. XVIII surgiu a moda, em França, na Alemanha e na Suíça de colorir os ovos e decorá-los com desenhos ou palavras, facto que continua presente até aos dias de hoje. Devido à influência vinda de outros países, começou a ser usual esconder-se ovos pintados em casa ou em jardins, para que as crianças os possam encontrar.

As amêndoas são um presente alimentar muito popular e característico da doçaria nesta altura. Na zona de Viana do Castelo era tradição as raparigas oferecerem aos rapazes ovos, em troca de um presente de amêndoas. O Alentejo conheceu também esta tradição, onde os rapazes ofereciam às namoradas um cartucho de amêndoas na Semana Santa.


in http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia_all.asp?noticiaid=44775&seccaoid=3&tipoid=116


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